quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Beleza de verão

Ainda da série de observações do verão soteropolitano.... Outra coisa que notei neste evento gigantesco que participei na última semana é que Salvador tem sim muita gente bonita. Eu, que fui criado num colégio plural em termos de origens (tinha carioca, paulista, gaúcho, baiano, etc) sempre ouvi que os baianos não são bonitos.

É bem verdade que ando frequentando espaços de gente com grana (é bom lembrar que tudo pra mim é de graça, tá! ainda prefiro o mercado do peixe), mas tenho visto sim muita gente bonita. O que me chamou a atenção é que essa negócio de beleza só interessa mesmo no primeiro olhar.

Incrível a sensação de cansaço que me dava ao olhar aquele povo bonito todos os dias. Sabe aquele papo de que gente bonita alegra o ambiente? Balela! Depois de um tempo, se a pessoa é só bonita, fica meio constrangedor ficar olhando pra ela.

Tá! Sei que quem ler esse post vai achar que é só um feio recalcado. Talvez seja, mas não é essa a primeira razão para escrever este post. O que vem me assustando depois que passei a frequentar esporadicamente a hi-so é que aqui nesta terra, invariavelmente, a beleza está associada ao dinheiro investido no "bem cuidar-se".

O que as pessoas chamam de "gente bonita" são os homens com barba bem feita, cabelo bem cortado, as mulheres de cabelo liso, maquiagem impecável e todo o miss en scene de mãos, gestos, sorrisos e cruzadas de pernas.

Não que isso não seja bonito, tá! Mas o que aconteceu com a beleza de um bom sorriso sincero? A espontaneidade morreu, ao menos para os baianos bonitos. Essa indissociável ligação entre beleza e vip, beleza e dinheiro faz com que um monte de coisa brega venha junto com a tal penca de pessoas bonitas.

Voltando ao tal evento, o que vi foi um monte de gente bonita tentando burlar a segurança para conseguir pulseiras; gente bonita tentando "colocar pra dentro" mãe, filho, gato, cachorro e periquito; gente bonita bajulando os profissionais envolvidos na organização destes espaços para conseguir vantagens; gente bonita sendo simpática sem parar.

É claro, que os camarotes não são só vilões, mas o que se esconde por trás deles é sim nojento. Eu sou um adepto ferrenho do conforto, então seria hipócrita criticar a existência dos camarotes e espaços vips, mas o que me incomoda é esse jeito "de ser vip", essa "simpatia plastificada", essa encenação de beleza e glamour que a gente arumou aqui.

Notória a falta de empolgação se comparada ao povo suado e apertado na pista. Gritante como perde-se em pulsação, em alegria mesmo para ser vip. Quem é vip não desce até o chão (isso não é bonito), quem é vip não se permite ser feliz ouvindo música ruim ("me dá, me dá a patinha").

Enfim, além dessas observações todas sobre felicidade, beleza e verão, este tal evento acabou com minha imunidade. Resfriado, dor de cabeça e vontade de dormir. Tchau!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Tristeza de verão

Me sinto sempre meio esquisito no verão. Essa coisa de ser feliz no verão, amar no verão, nunca me bateu direito. Claor que não tô negando a importância da estação e de seus pinduricalhos para esse louco estado chamado Bahia, mas ser baiano no verão é sempre mas controverso.

E se vc não gosta de ir a praia toda semana? E se você não acha legal acordar suado no sábado de manhã e fazer uma faxina ouvindo som alto e tomando uma gelosa? E se vc quer ir a apenas um ou dois shows na estação inteira? E se vc não consegue absorver o "Rebolation" em apenas duas semanas?

Como é que ficam os baianos tristes no verão? Alguém já pensou nisso? Claro, porque deve parecer (aos olhos de alguns) uma heresia estar triste no verão em Salvador né?

Não sou do tipo melancólico, mas hoje, depois de uma noite em mais um desses eventos de verão, fiquei abismado com a economia da felicidade baiana. É isso que pareceu a este olhar saudoso de um tempo que não viveu.

Uma verdadeira indústria da felicidade, regada a chapinhas, microshorts, pepsi, skol, chiclete e banana. Parece meio conversa de doido, mas sou um fã do anticlímax.

No meio desse badalado (outro feito da indústria da felicidade é a repetição ostensiva de signos linguísticos - vip, hype, bombante) evento, sempre meu olhar era perseguido pelos símbolos do oposto; pessoas bêbadas, casais discutindo, gente cansada sentada nas sarjetas.

Pois então fica a questão: pra que muita gente fique feliz ao mesmo tempo é sempre preciso que alguns fiquem meio deprê?

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Façamos!!!!

Tô surpreendentemente feliz hoje, então vamos a uma ode ao amor!!


Façamos (Vamos amar) - Chico Buarque
Composição: Cole Porter, versão de Carlos Rennó

Os cidadãos no Japão fazem
Lá na China um bilhão fazem
Façamos, vamos amar

Os espanhóis, os lapões fazem
Lituanos e letões fazem
Façamos, vamos amar

Os alemães em Berlim fazem
E também lá em Bonn
Em Bombaim fazem
Os hindus acham bom

Nisseis, níqueis e sansseis fazem
Lá em São Francisco muitos gays fazem
Façamos, vamos amar

Os rouxinóis nos saraus fazem
Picantes pica-paus fazem
Façamos, vamos amar

Uirapurus no Pará fazem
Tico-ticos no fubá fazem
Façamos, vamos amar

Chinfrins, galinhas afim fazem
E jamais dizem não
Corujas sim fazem, sábias como elas são

Muitos perus todos nus fazem
Gaviões, pavões e urubus fazem
Façamos, vamos amar

Dourados no Solimões fazem
Camarões em Camarões fazem
Façamos, vamos amar

Piranhas só por fazer fazem
Namorados por prazer fazem
Façamos, vamos amar

Peixes elétricos bem fazem
Entre beijos e choques
Cações também fazem
Sem falar nos hadoques

Salmões no sal, em geral, fazem
Bacalhaus no mar em
Portugal fazem
Façamos, vamos amar

Libélulas em bambus fazem
Centopéias sem tabus fazem
Façamos, vamos amar

Os louva-deuses com fé fazem
Dizem que bichos de pé fazem
Façamos, vamos amar

As taturanas também fazem
com um ardor incomum
Grilos meu bem fazem
E sem grilo nenhum

Com seus ferrões os zangões fazem
Pulgas em calcinhas e calções fazem
Façamos, vamos amar

Tamanduás e tatus fazem
Corajosos cangurus fazem
Façamos, vamos amar

(Vem com a mãe)

Coelhos só e tão só fazem
Macaquinhos no cipó fazem
Façamos, vamos amar

Gatinhas com seus gatões fazem
Tantos gritos de ais
Os garanhões fazem
Esses fazem demais

Leões ao léu, sob o céu, fazem
Ursos lambuzando-se no mel fazem
Façamos, vamos amar
Façamos, vamos amar

sábado, 14 de novembro de 2009

Caetano e Lula são sine qua non


Não precisava, mas vou fazer umas confissões antes de ir ao assunto. Votei em Lula na eleição de 2002. Depois, meio enojado com o negócio do mensalão, votei em branco nos dois turnos. Ou seja, não sou um lulista, apesar de ter simpatia pelo que se chama esquerda.

No entanto, de fato, depois de Getúlio, Lula é a mais importante personalidade política deste país. Com tudo de bom e de ruim que essa importância requer. Tenho notável admiração, por outro lado, pela trajetória de Lula. Acho mesmo um barato um cara como ele ser presidente e não há aqui julgamento sobre os sucessos e fracassos dos seus governos.

É claro que o brasileiro médio, reacionário que só, apenas engoliu Lula depois da maquiagem marqueteira, depois da união com um mega empresário da indústria textil (José Alencar) e depois do fisiologismo do PMDB.

Quando falo em brasileiro médio, é claro, que tô sendo reducionista, tá? Mas é aquele sentimento brasileiro que gritava: "analfabeto", "não vai saber falar fora do país", "vai dar o calote internacional" etc. Todo mundo sabe do que eu tô falando né?

Inegável, no entanto, é o carisma desse homem. Todas as suas frases de efeito, todas suas metáforas futebolísticas, sua oratória apaixonante o transformaram numa figuraça. Mesmo quando ele fala besteira, é impossível não ter simpatia. Lula é o representante da superioridade da forma pelo conteúdo. Calma, ele tem conteúdo sim! Não é isso. É que a maneira como ele diz, como ele gesticula, como ele explica é, sem dúvida, seu grande trunfo.

Na última semana, o auge foi sua alfinetada em Caetano Veloso. Caetano foi, durante muito tempo, o representante de uma geração que misturou, da quebra dos preconceitos, dos caras que misturaram bossa nova e jovem guarda. Caetano é um gênio, mas de uns tempos pra cá tá ficando chaaaaato. Fala mal de todo mundo, parece sempre disposto a opinar sobre tudo (até sobre pedras portuguesas na Barra, lembram?).

Dessa vez, ele errou feio ao chamar Lula de cafona, grosseiro e analfabeto e ao dizer que ele não sabe falar direito. E o pior, falou disso pra dizer que vai votar na Marina (minha candidata). Menosprezou Lula, que é muito mais do que um semi-analfabeto grosseiro e menosprezou Marina, que se apresenta "melhor" que Lula por outros motivos muito mais nobres do que esse.

O melhor da história toda não foi a polêmica em si. Melhor foi a réplica (só pra ficar no campo político). Livre dos chiliques dos brasileiros médios, que adoram curar suas mágoas e chorar suas pitangas em público, Lula mostrou um nível de sutileza e ironia digna do próprio Caetano e de suas geniais canções.

"A educação é condição sine qua non para o crescimento. Eu digo sine qua non porque, se o Caetano Veloso fala sine qua non, o Lula também pode falar"

A ironia é ou não é sine qua non pra se viver? Entre um e outro, eu fico com os dois, desde que eles não percam a picardia e a ironia. Afinal, barraco em público é coisa de programa de TV barato.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O tempo não para

Clam hein, não vou começar a me dedicar a auto-ajuda!!! Uma amigo tá passando pelo desespero que é finalizar o trabalho de conclusão de curso da faculdade. É uma bosta. Ninguém me diga que é normal, é fácil, tranquilo se formar, por que não é!!!!!

Primeiro tem toda a carga social trazida com o sentimento de "estar virando adulto". Depois do pré tem a alfabetização, depois tem a 1ª série, depois tem a época de ter vári@s professor@s. Lembram disso? Eu achava o máximo ser quinta série, por que até a quarta nós tínhamos uma professora só pra todas as matérias e isso era coisa de criança. Quando eu cheguei na quinta série eu queria estudar Física. Depois eu queria fazer cursinho, depois queria escolher alguma coisa, já que descobri que a Físca é inútil pra mim!!! Mas e depoois da faculdade?????

Não venham com o papinho de que você pode fazer uma pós, pode fazer o mestrado, etc. A moral cristã ocidental, que glorifica o trabalho, está impregnada em nós (em mim pelo menos está). É como se a formatura fosse o atestado de prontidão: você fica pronto pra vida! Nada, nada, nada!

Voltando ao sofrimento do meu amigo. Ele está nessa fase e tem um monte de agravantes: voltou de intercâmbio, terminou com a namorada e não se sente motivado pra nada. Tô lembrando agora de uma grande amiga minha que vou ver em breve e que passou pela mesma coisa!

Eu entendo isso. Sentir-se motivado é, para algumas pessoas, fundamental para realizar qualquer ação. Eu admiro quem simplesmente pega um trabalho e faz. Parece simples, né? "Tem que fazer? Vou lá e faço". Voltamos ao papo de dividir o mundo em partes, de segmentar as coisas.

Você é do tipo que precisa estar bem na vida amorosa pra trabalhar? Sem motivação você não encontra namorado? Sem paixão você não escreve artigo científico? Pois então sofra, viu! O tempo não para (hehehehe) e isso não é apenas letra de canção. Tchau!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Não sei a resposta

Sempre, sempre digo que a energia é responsável por boa parte das nossas experiências. Mais do que apenas dizer que nós somos influenciados por energias negativas ou que somos ajudados pelo pensamento positivo, eu acredito mesmo que cada um tem uma energia vital, com qual lida diariamente e através da qual "decide" o que vai acontecer consigo.

Parece difícil, mas não é. Eu mesmo tenho colocado nos últimos anos minha energia produtiva totalmente voltada para a chamada vida profissional. É meio esquisito perceber que nós dividimos a vida, criamos caixas pra tudo.

Só pra ser bem pedante: é o olhar funcionalista que nos persegue. Os que criam explicação científica pra tudo dizem que é uma predisposição do cérebro. Vá lá que seja! O certo é que mesmo eu, crítico ferrenho dessa maneira de dividir o mundo em caixas, acabei fazendo o mesmo.

Tem me parecido impossível levar uma vida saudável profissionalmente e em equilíbrio com a minha vida emossentimental. Estranho, né? Mas é bem assim que me sinto: ativo, esperançoso, positivo e confiante num futuro profissional promissor, enquanto sou negligente e relapso em minha outra vida.

O que mais me angustia é a certeza que martela em minha cabeça: a culpa é minha. E é mesmo. Minha energia parece que bloqueia relacionamentos saudáveis ou melhor, nos últimos tempos ela tem bloqueado qualquer relacionamento (nem gripe!!!!).

Hoje, no entanto, tive uma boa ideia do porquê (talvez!!!) não saia desse marasmo. Um caso clássico de energia desregulada (tô parecendo médico falando, né?) me chegou como um flash. Uma amiga, dessas que normalmente classificamos como tendo "dedo podre". Um caso típico: só jogava pro mundo a energia de relacionamentos enrolados. Ela tem uma grande paixão e parece que se boicota esperando essa paixão estar disponível.

Não é que hoje ela deu um basta. Prestes a embarcar em mais uma furada, colocou um limite. Disse não. Enfrentou suas fraquezas e mudou a energia. Não se permitiu entrar em mais uma furada. Ótimo, né? Que nada! Ao perceber a mudança de atitude, claramente benéfica para qualquer um que a ouvisse, estava aos prantos. Eu, no meu papel clássico de ouvidor, me perguntava: mas porque chora alguém que está se preservando, agindo em defesa própria?

Depois de um dia ruminando a situação, a resposta mais plausível que me vem é: a possibilidade de mudar é dolorosa. Perceber que você vai mudar, que as situações se apresentaram novas faz você sofrer. Que doido, né?

Aí eu fiquei, estou e ainda continuarei com uma pulga atrás da orelha....não será medo dessa mudança? Será que não estou sendo fraco e com medo de sofrer horrores? Não estou eu querendo continuar em águas conhecidas e tranquilas? Merda. Não sei a resposta. Tchau!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Quero minha puta na zona!

Não sei se o fato de ser baiano e estar acostumado com "prós Jaquelines" e "Adrianas Pacotões" me fez ficar perplexo com a repercussão que um micro vestido teve no caso da Uniban. Pode parecer estranho, mas até agora não consigo compreender a revolta e polêmica causada pela vulgaridade exposta.

Por que não venham me dizer que ela não estava vulgar naquele microvestido rosa. É claro que é vulgar um vestido daqueles num ambiente que deveria ser de construção do conhecimento. É claro que a aluna queria provocar alunos e alunas da universidade. Mas e daí?

Para alguns, pode parecer cinismo, mas vivo num lugar onde a sexualidade é exposta, e justo por isso, é aceita de melhor forma. Calma, sei que a Bahia é recordista em assassinato de homossexuais, mas é fato também que a nudez, a sensualidade e a vulgaridade não são novidades por aqui.

Me espanta é o que vem por trás disso. Li um artigo do Contardo Calligaris e concordo em gênero, número e grau. O problema é que a mulher não pode desejar. A mulher não pode tornar explícita sua sexualidade, sua vontade de provocar, sua líbido até.

Mais do que isso! Querer isso tudo em público, é quase um crime para o bando de animais da Uniban. Por falar nisso, sempre, desde os idos do Colégio Militar de Salvador, tive medo dessas aglomerações de pessoas. Me parece que em grupo, qualquer imbecil vira um linchador, um assassino em potencial. É só ver os estragos de trotes país afora.

Outra coisa que chama a atenção é a hipocrisia gritante: o problema é o rompimento da etiqueta. Ninguém me diga ou tente me convencer que os alunos (neste caso não há palavra melhor para defini-los: "sem luz") não colocariam moças vestidas nos mesmo trajes em seus carros nas zonas por aí. Era só uma questão geográfica: "deixem as putas na zona".

Seguindo os fatos absurdos, achei que "apenas" se tratava de mais um caso de jovens doentios de classe média que batem numa mulher vulgar, queimam índios, jogam ovo em pobre, mas não se espantam com corrupção. Não! Não foi só isso!

Depois da expulsão oficial da futura turismóloga temos um fato institucional. Uma universidade decidiu que suas normas seriam mais importantes que a constituição brasileira. Resolveu a tal instituição cumprir o papel de polícia de costumes. Pode?

Por fim, mais do que patética, a instituição resolveu mostrar como funcionam seus engendramentos marketeiros. Voltou atrás com a expulsão e decidiu seguir os mandamentos das relações públicas e se retratar publicamente.